EXPECTATIVA
Estou totalmente pelo avesso.
Não sei se assim me faço verdade
ou fujo do tempo que não me espera mais.
Penso que às vezes é preciso saltar no escuro
para não dizer depois que a estrada passou
e os pés não a seguiram.
Como dói a expectativa do tempo que não vivemos:
há o medo da volta,
o cheiro do mistério,
esse pisar em sensações
tão intensas e incertas...
Quem dera fechar os olhos
e vislumbrar todas as chaves
na sequência que inventamos.
Mas os indícios não revelam
onde a ave irá pousar.
De certo mesmo, só o momento
em que a ousadia consentiu em voar.
Basilina Pereira
O TEMPO DA FLOR
A ave pousou.
Não houve surpresa no ninho
e o calor que rege a vida
foi além de um simples mormaço.
O mar encrespado bateu no penhasco
e as labaredas camufladas entre as fendas da alma
soltaram fagulhas
e respiraram vida própria.
Mas até o fogo faz-se cinzas
e o pó se espalha no vento
para um dia ser história,
na quietude das lembranças.
É a verdade que mais uma vez profetiza:
há um tempo para cada flor.
Basilina Pereira
O SUSTO
A escolha é o tributo da existência.
Não há certeza de nada:
daquele tempo que não veio
da verdade que não se abriu
e de tudo que não vingou... depois do sono.
A neblina esconde o medo
e os sentimentos.
Esses, que bem poderiam não ter existido.
Talvez se tivessem passado no comboio da tarde,
assim mesmo: direto, sem olhar para os lados...
talvez pudessem evitar a germinação da semente,
a dor de nascer,
a coragem para abrir os olhos,
arriscar a lágrima e escolher
- no susto -
o caminho que se trilha em primeira vez.
Basilina Pereira
NOSSO ENCONTRO
Não sei versejar despedidas.
Persigo o som de um violino
que me diz sempre pra voltar
e, com retalhos desse canto,
construo meu castelo,
misturo o pó aos sentimentos.
Há ainda tanta coisa pra entender...
como o medo e a coragem na proporção de um cálice
pelo meio que transborda no ritmo das espumas,
e o nosso encontro: tão improvável... tão intenso.
Se um dia você se encontrar em meus versos,
é porque a memória sobreviveu ao crepúsculo,
o vento guardou seu perfume,
aqueles momentos resistiram
e, vez ou outra, ressurgem
na emoção que ainda pulsa num casulo.
Basilina Pereira
SINTONIA
Não prometo te esquecer antes do próximo abraço.
Nem peço que me recordes
toda vez que a macieira florir.
O destino da colmeia é transbordar de mel,
mesmo que a primavera maltrate o pólen das flores.
Há coisas que estão postas
e independem da chegada ou da partida.
Só a coragem arrisca-se ao galope no escuro,
sem economizar a vontade da espora.
E apenas a paixão pode bombear no vento
a volúpia de dois corpos... envolvidos...
na sintonia de uma nota só.
Basilina Pereira
O MOMENTO DA QUEDA
Dentro do espelho busco a resposta,
mas só o tempo levará os rancores
que ele mesmo incrustou na parede.
Procuro os longos bicos que buscaram o néctar
naquelas manhãs de um abril azulado,
quando as flores ainda se sentiam livres
porque do seu perfume as abelhas sabiam.
A minha pele avisa que o seu brilho pode apagar,
mas as batidas do coração seguem no ritmo da infância
e dos dias ensolarados
que sacudiam as copas das árvores.
Difícil é o trajeto das folhas entre a seiva e o cansaço.
Só mesmo um olho treinado para o espanto
conseguirá sobrevoar o momento da queda.
Basilina Pereira
PRECISO...
Preciso ver além dessa certeza opaca.
Deixo as lembranças inoportunas
seguirem sua própria órbita.
Não quero ler teus pensamentos,
voltar antes de ter partido
nem me arrepender do fruto
que não deixei dourar.
Quero ser a flor que despetalou ao vento,
verteu suas mágoas no orvalho,
enquanto pescava a sensação da chuva sob os pés
e a possibilidade de explodir em risos
toda vez que um arrepio me eriçar as raízes.
Sempre me ensinaram a contar estrelas
e desaprendi viver no escuro.
Anseio por essa chama que não conhece distâncias,
essa avidez por crenças remotas
e por acreditar que o limite da vida
é a própria felicidade.
Basilina Pereira
DE OUTRA ÉPOCA
Desconfio que entrei na festa errada.
Ouço música que não entendo
e falo uma linguagem surda.
Pela janela, o barulho do mar é inócuo,
se a calma me escorre pela varanda.
Trajo vestes que me desnudam
e vejo luzes que não me escoltam.
Como um náufrago em seu lenho
cometo impulsos,
arrisco o último fósforo,
na tentativa de estar ali.
Faço poemas na areia
e, na confusão dos dias,
remexo no tempo,
altero rotas que já foram percorridas
no desejo de camuflar meus erros.
Tantos que...confesso:
deixei de catalogar na memória.
Na vertigem dos dias, uma leve esperança em dialeto
se revela: alarme falso, sou mesmo um pária
que tentou pegar um desvio
e aportou em outra época,
a sua já havia partido.
Basilina Pereira
RABISCOS
Meu rascunho sobrevive.
Aqui e ali sou forçada a virar uma página.
E como recomeçar um novo verso
se a linha está enxuta?
Nenhuma lágrima,
nenhum borrão...
só um sobressalto, sobre o qual
pisarei – a grosso-modo –
pra fugir de outra existência,
aquela embebida em ilusões,
substância tão volátil
que dissipa ao primeiro chamado da razão.
Como prosseguir, se há um espinho em minha voz?
Longe...as tardes de vento que batiam nas janelas
e espalhavam meus projetos pelo chão.
Hoje, apenas rabiscos denunciam
que uma alma esteve aqui.
Basilina Pereira
OS BARCOS
Há um vento abissal que separa
o seu barco do meu.
Somos pólos que se atraíram
numa cumplicidade que não resistiu ao calor da hora.
O fósforo, uma vez acesso, perderá o lume
se não encontrar a cera e o pavio.
Pedras há que se fazem perenes e outras que,
esmagadas, viram palavras sem mote e sem endereço.
A chama da pele não sobrevive à penumbra do tempo
e cada rosto se consome em sua própria trajetória.
Seu caminho é ainda um extenso vale coberto por uma bruma
que lhe impede de escolher um dos lados da moeda.
E eu estou de partida.
Sem nenhuma profecia, vou escrevendo meus versos
e pode ser que neles nossa história sobreviva.
Basilina Pereira
GÊNESE
Esta fragilidade me incomoda.
Tantos arbustos exibem seus bailados,
cores espessas que ofuscam olhares argutos
e sucumbem a um raio remoto
ou ao simples sopro de um clarão.
Mas sua gênese é teimosa...
quase sempre se engana
com um verso feito à queima-roupa,
pra depois cantar com as cigarras
e morrer numa nota sem pauta.
O capricho é que ela se confunde com o poema:
vegeta em qualquer tempo e lugar,
não há vacina contra sua incidência
nem previsão de seu alcance.
Basilina Pereira
A PROFECIA
Quando a porta se fecha
é que elas se abrem: as comportas do desejo.
Por vezes tento mantê-las sob neblina,
num mar de reminiscências que,
ao clamor do toque, avisa: o magma pode fluir,
em desespero, até explodir num grito de estrela
e sucumbir num torpor de plumas.
O percurso é certo e ligeiro.
Os ventos é que desviam na equação do momento
e a música que envolve o ápice
pode voar na velocidade das chamas.
Mas o chamado do corpo insiste e persevera,
até morrer num suspiro...
É quando os sinos revelam:
a profecia se cumpriu.
Basilina Pereira
BONS MOMENTOS
O amanhecer nem sempre é leve.
Mesmo em estado de graça,
sobram pecados além dos sentidos.
Os músculos guardam os espasmos da noite
e a sensação de orvalho a escorrer pelos poros
traz a embriaguez do olho que,
de tão lúbrico,
pede licença às pálpebras
para sonhar os arrulhos da véspera.
Os bons momentos são borboletas:
de vida curta e uma cor inesquecível...
Tendo vivido alguns desses instantes,
é possível acariciar as ausências
com a suavidade de um beijo no olhar
e, na resistência do tempo,
embalar o pôr-do-sol
como quem se desprendeu das nuvens
e pousou.
Basilina Pereira
ESCOLHAS
Sou aquilo que plantei,
não o que esperei colher.
As escolhas nos enterram vivos,
se nos perdemos em um desvio sem margem.
O calendário desfolha no ritmo da previsão
e o tempo de cada um cobra o seu tributo
cada vez que uma gaivota, em voo solo, percebe que o ar
que lhe banha as penas
é único em seu momento:
ou se abre o olho e se apanha a luz
ou o sol se põe no ventre da noite.
Basilina Pereira
Estou totalmente pelo avesso.
Não sei se assim me faço verdade
ou fujo do tempo que não me espera mais.
Penso que às vezes é preciso saltar no escuro
para não dizer depois que a estrada passou
e os pés não a seguiram.
Como dói a expectativa do tempo que não vivemos:
há o medo da volta,
o cheiro do mistério,
esse pisar em sensações
tão intensas e incertas...
Quem dera fechar os olhos
e vislumbrar todas as chaves
na sequência que inventamos.
Mas os indícios não revelam
onde a ave irá pousar.
De certo mesmo, só o momento
em que a ousadia consentiu em voar.
Basilina Pereira
O TEMPO DA FLOR
A ave pousou.
Não houve surpresa no ninho
e o calor que rege a vida
foi além de um simples mormaço.
O mar encrespado bateu no penhasco
e as labaredas camufladas entre as fendas da alma
soltaram fagulhas
e respiraram vida própria.
Mas até o fogo faz-se cinzas
e o pó se espalha no vento
para um dia ser história,
na quietude das lembranças.
É a verdade que mais uma vez profetiza:
há um tempo para cada flor.
Basilina Pereira
O SUSTO
A escolha é o tributo da existência.
Não há certeza de nada:
daquele tempo que não veio
da verdade que não se abriu
e de tudo que não vingou... depois do sono.
A neblina esconde o medo
e os sentimentos.
Esses, que bem poderiam não ter existido.
Talvez se tivessem passado no comboio da tarde,
assim mesmo: direto, sem olhar para os lados...
talvez pudessem evitar a germinação da semente,
a dor de nascer,
a coragem para abrir os olhos,
arriscar a lágrima e escolher
- no susto -
o caminho que se trilha em primeira vez.
Basilina Pereira
NOSSO ENCONTRO
Não sei versejar despedidas.
Persigo o som de um violino
que me diz sempre pra voltar
e, com retalhos desse canto,
construo meu castelo,
misturo o pó aos sentimentos.
Há ainda tanta coisa pra entender...
como o medo e a coragem na proporção de um cálice
pelo meio que transborda no ritmo das espumas,
e o nosso encontro: tão improvável... tão intenso.
Se um dia você se encontrar em meus versos,
é porque a memória sobreviveu ao crepúsculo,
o vento guardou seu perfume,
aqueles momentos resistiram
e, vez ou outra, ressurgem
na emoção que ainda pulsa num casulo.
Basilina Pereira
SINTONIA
Não prometo te esquecer antes do próximo abraço.
Nem peço que me recordes
toda vez que a macieira florir.
O destino da colmeia é transbordar de mel,
mesmo que a primavera maltrate o pólen das flores.
Há coisas que estão postas
e independem da chegada ou da partida.
Só a coragem arrisca-se ao galope no escuro,
sem economizar a vontade da espora.
E apenas a paixão pode bombear no vento
a volúpia de dois corpos... envolvidos...
na sintonia de uma nota só.
Basilina Pereira
O MOMENTO DA QUEDA
Dentro do espelho busco a resposta,
mas só o tempo levará os rancores
que ele mesmo incrustou na parede.
Procuro os longos bicos que buscaram o néctar
naquelas manhãs de um abril azulado,
quando as flores ainda se sentiam livres
porque do seu perfume as abelhas sabiam.
A minha pele avisa que o seu brilho pode apagar,
mas as batidas do coração seguem no ritmo da infância
e dos dias ensolarados
que sacudiam as copas das árvores.
Difícil é o trajeto das folhas entre a seiva e o cansaço.
Só mesmo um olho treinado para o espanto
conseguirá sobrevoar o momento da queda.
Basilina Pereira
PRECISO...
Preciso ver além dessa certeza opaca.
Deixo as lembranças inoportunas
seguirem sua própria órbita.
Não quero ler teus pensamentos,
voltar antes de ter partido
nem me arrepender do fruto
que não deixei dourar.
Quero ser a flor que despetalou ao vento,
verteu suas mágoas no orvalho,
enquanto pescava a sensação da chuva sob os pés
e a possibilidade de explodir em risos
toda vez que um arrepio me eriçar as raízes.
Sempre me ensinaram a contar estrelas
e desaprendi viver no escuro.
Anseio por essa chama que não conhece distâncias,
essa avidez por crenças remotas
e por acreditar que o limite da vida
é a própria felicidade.
Basilina Pereira
DE OUTRA ÉPOCA
Desconfio que entrei na festa errada.
Ouço música que não entendo
e falo uma linguagem surda.
Pela janela, o barulho do mar é inócuo,
se a calma me escorre pela varanda.
Trajo vestes que me desnudam
e vejo luzes que não me escoltam.
Como um náufrago em seu lenho
cometo impulsos,
arrisco o último fósforo,
na tentativa de estar ali.
Faço poemas na areia
e, na confusão dos dias,
remexo no tempo,
altero rotas que já foram percorridas
no desejo de camuflar meus erros.
Tantos que...confesso:
deixei de catalogar na memória.
Na vertigem dos dias, uma leve esperança em dialeto
se revela: alarme falso, sou mesmo um pária
que tentou pegar um desvio
e aportou em outra época,
a sua já havia partido.
Basilina Pereira
RABISCOS
Meu rascunho sobrevive.
Aqui e ali sou forçada a virar uma página.
E como recomeçar um novo verso
se a linha está enxuta?
Nenhuma lágrima,
nenhum borrão...
só um sobressalto, sobre o qual
pisarei – a grosso-modo –
pra fugir de outra existência,
aquela embebida em ilusões,
substância tão volátil
que dissipa ao primeiro chamado da razão.
Como prosseguir, se há um espinho em minha voz?
Longe...as tardes de vento que batiam nas janelas
e espalhavam meus projetos pelo chão.
Hoje, apenas rabiscos denunciam
que uma alma esteve aqui.
Basilina Pereira
OS BARCOS
Há um vento abissal que separa
o seu barco do meu.
Somos pólos que se atraíram
numa cumplicidade que não resistiu ao calor da hora.
O fósforo, uma vez acesso, perderá o lume
se não encontrar a cera e o pavio.
Pedras há que se fazem perenes e outras que,
esmagadas, viram palavras sem mote e sem endereço.
A chama da pele não sobrevive à penumbra do tempo
e cada rosto se consome em sua própria trajetória.
Seu caminho é ainda um extenso vale coberto por uma bruma
que lhe impede de escolher um dos lados da moeda.
E eu estou de partida.
Sem nenhuma profecia, vou escrevendo meus versos
e pode ser que neles nossa história sobreviva.
Basilina Pereira
GÊNESE
Esta fragilidade me incomoda.
Tantos arbustos exibem seus bailados,
cores espessas que ofuscam olhares argutos
e sucumbem a um raio remoto
ou ao simples sopro de um clarão.
Mas sua gênese é teimosa...
quase sempre se engana
com um verso feito à queima-roupa,
pra depois cantar com as cigarras
e morrer numa nota sem pauta.
O capricho é que ela se confunde com o poema:
vegeta em qualquer tempo e lugar,
não há vacina contra sua incidência
nem previsão de seu alcance.
Basilina Pereira
A PROFECIA
Quando a porta se fecha
é que elas se abrem: as comportas do desejo.
Por vezes tento mantê-las sob neblina,
num mar de reminiscências que,
ao clamor do toque, avisa: o magma pode fluir,
em desespero, até explodir num grito de estrela
e sucumbir num torpor de plumas.
O percurso é certo e ligeiro.
Os ventos é que desviam na equação do momento
e a música que envolve o ápice
pode voar na velocidade das chamas.
Mas o chamado do corpo insiste e persevera,
até morrer num suspiro...
É quando os sinos revelam:
a profecia se cumpriu.
Basilina Pereira
BONS MOMENTOS
O amanhecer nem sempre é leve.
Mesmo em estado de graça,
sobram pecados além dos sentidos.
Os músculos guardam os espasmos da noite
e a sensação de orvalho a escorrer pelos poros
traz a embriaguez do olho que,
de tão lúbrico,
pede licença às pálpebras
para sonhar os arrulhos da véspera.
Os bons momentos são borboletas:
de vida curta e uma cor inesquecível...
Tendo vivido alguns desses instantes,
é possível acariciar as ausências
com a suavidade de um beijo no olhar
e, na resistência do tempo,
embalar o pôr-do-sol
como quem se desprendeu das nuvens
e pousou.
Basilina Pereira
ESCOLHAS
Sou aquilo que plantei,
não o que esperei colher.
As escolhas nos enterram vivos,
se nos perdemos em um desvio sem margem.
O calendário desfolha no ritmo da previsão
e o tempo de cada um cobra o seu tributo
cada vez que uma gaivota, em voo solo, percebe que o ar
que lhe banha as penas
é único em seu momento:
ou se abre o olho e se apanha a luz
ou o sol se põe no ventre da noite.
Basilina Pereira
GRADAÇÕES
Ah! Como a poesia me liberta!
Navego pelas artérias do verso
e vou pescando o que a vida não dilui.
Por vezes, o caminho é outro,
a confusão é certa,
o desejo é tanto...
que o crepúsculo sangra.
Aí, vem o vento da tarde
...e decifra a noite,
...e exercita a frase,
...e dispensa a rima.
Na expectativa do poema
vou bordando emoções
e apanhando em minha rede
as gradações de cada instante.
Basilina Pereira
MARÉ CHEIA
Quando a chuva molha nossas vestes
em grossos pingos debulhados sobre a areia,
a emoção resiste, em maré cheia,
no calor dessa entrega inconteste.
E por mais que se alonguem esses enleios
na explosão de um desejo em maresia
prevalece a onda presa, na sintonia,
de nossos corpos flutuantes.
Basilina Pereira
SOU AVÓ!
Caí num caldeirão enluarado,
cheio de fraldas empapeladas,
um choro distante da minha memória
e uma música de embalar sonhos, a sós.
Quanta desordem...
nessa minha alma inquieta e trapaceira
que, de longe, salta sobre os trilhos do futuro
numa busca remota do entardecer.
Mas o que encontro é alvorada,
é canto de pássaro,
berçário de conchas,
é terra adubada.
se há degrau...é um só.
Então me reciclo: céus, sou avó!
Mas se a casca murchou, o olho encolheu...
a chama ficou...ainda sou eu!
Basilina Pereira
ESPIRAIS
Nem sei em quantas partes me rodopio.
Sob meus pés, sedentos e ágeis,
vão se desdobrando lençóis
de tantas cores
que chegam a confundir a intenção da manhã.
Quando me cubro
é pra disfarçar aquela chama interdita
que baila com o vento, à porta da solidão.
Se me desnudo
sou a corça acuada que arrepia
ao se expor ao lampejo do susto,
onde viceja a única rosa proibida.
Há ainda tantas setas...
cheias de pontilhados e inversões:
o poeta ousando em papel de cera,
o coração da mãe querendo seu ninho,
esta fronte com faro e suor
e a estrada...presa numa palavra ausente:
enigma que vai se decompondo em espirais.
Basilina Pereira
O POÇO
A superfície da água era límpida
e o poço dormitava tranqüilo
em sua essência de cratera líquida.
Mas veio um vento de longe,
com seu gingado afoito,
um assobio ousado e devasso,
assustando as estrelas
que se banhavam em seu próprio reflexo.
Foi quando a lua assistiu, abismada,
ao redemoinho de sonhos que afloraram,
em descompasso,
açoitando a essência da lógica,
na exata vazão do êxtase.
E o desejo que rodopiava, à margem do perigo,
mergulhou como a planta cega
até mudar a cor do cristal.
Basilina Pereira
O BEIJO DO VENTO
De nada vale a rosa sem o espinho.
E o que é a vida...sem tropeço?
O que conta são as pedras do caminho,
a poeira em plena estrada,
a dor que deixou escaras
e a insensatez do vento...
porque o seu beijo, na vertigem,
é o que fica,
além do momento.
Basilina Pereira
POR QUE ME CATIVASTE?
“Se tu me cativas, minha vida será como cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me farão entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música.” Saint Exupery
Sei que não me cativaste por querer,
mas conhecias a fragilidade de uma vida abstrata.
Também não me deixei cativar por vontade:
foi a música que saiu de teus olhos
e penetrou meus dispersos pensamentos...
foi a luz que brilhou em teu sorriso,
nos momentos de espera,
aquela inquietude que invadiu meus silêncios,
pichou minhas paredes de dúvidas
e plantou aquela vontade densa
de dar um passo à frente, às cegas,
em busca de um relâmpago, de um cuidado...
ou qualquer coisa concreta que não me fizesse ignorada
e que minha alma inédita e estrangeira
pudesse ouvir teus passos no escuro
e fazer de conta que o sonho apenas dorme...
... sob o chão.
Basilina Pereira
ESPERANÇA
De quantas letras sou feita?
Em tantas me decomponho!
Cato versos na sarjeta,
quero a música do sonho.
Tenho calos na garganta
pela palavra não dita
e a devoção de uma santa
em minha saudade palpita
pelas ausências que conto
no peso da solidão
meu passo nunca está pronto
p’ras pegadas que virão.
E assim vou me desfolhando
na luz que vem da lembrança
sem saber por onde e quando
serei, talvez ...esperança.
Basilina Pereira
MEUS MUROS
Não sei quem os ergueu
se foi a vida
ou se fui eu.
Lá fora deixei meus sentimentos
todos avulsos, perdidos,
nem sabem mais dos versos
que corriam em minhas veias,
sua adrenalina se perdeu.
Cá dentro
este silêncio heroico
tenta sobreviver
em segredo.
Basilina Pereira
EM FALSO
Herdei todas as alvoradas
e não sei o que fazer com elas.
Passo os dias catalogando sonhos
com os pés em falso
presos apenas nessa inquietude ímpar
que todo dia exponho na janela,
mas à tarde, só o eco me consola.
Basilina Pereira
POEMETO DO CAMINHO
Neste espaço submerso
o amor nada em labirintos
quando se joga a isca
vem o medo e a destrói.
Ensinaram-nos tantas coisas
que acabaram em velhas caixas de sapatos,
só não nos ensinaram a ser feliz.
Basilina Pereira
O ECLIPSE
Não devias ter brincado entre as nuvens
sem saber de sua textura e seus afins.
Se buscavas o crepúsculo do vento
tinhas que inventar a madrugada,
porque quando um corpo encontra outro corpo
não se sabe onde é começo, onde o fim...
Em abismos as vertentes se desmancham
em formas doces que alagam as estrelas
e o céu por discrição conduz a noite
à planície onde o eclipse não tem volta.
Basilina Pereira
O REENCONTRO
Certos dogmas vão além:
a cera é o lar de onde voaram as abelhas,
e o corpo ainda é terra onde vicejam as surpresas.
A matéria irresoluta que aduba os canteiros
permanece camuflada sob do chão...
entre o sangue das raízes.
Se remexemos na ravinas do passado
não será surpresa o reencontro
com o sentimento que mandamos embora,
mas ele não foi.
Basilina Pereira
TEMPO CONTRÁRIO
E nossos passos, contrafeitos,
deixam-se ir em direções opostas.
Em nossas lembranças,
chamados latentes
de um tempo contrário
onde um ímã que cintilava em nosso olhar
pulsava em forma de encanto.
Hoje, seguem lentos,
como se o peso do tempo
estivesse amarrado em nossas vestes
e não em nossos corações.
Em pequenos lapsos,
ressurgem pegadas outras
que convergiam ávidas
para o toque das mãos...
mas como miragem,
o passado voa
e nós, seguimos a pé.
Basilina Pereira
PAI, EU TE AMO
Pai,
faz tempo que você se foi
mas ainda está aqui
todo aquele amor inconfesso
que víamos nascer a cada manhã
e não tínhamos coragem de nos dizer.
Acho que não precisava...
devia estar escrito em meu sorriso
devia estar escrito em seu olhar,
nas minhas traquinagens,
no seu falar manso,
no seu jeito de ensinar
que “a gente colhe o que planta,
pensar antes de falar
e que uma palavra dada
é coisa pra se honrar...”
Mas nunca lhe ouvi dizer,
também não pude expressar
o amor que, de tanta monta,
não ousou se declarar.
Mas eu sei que ainda me ouve
nos passos que imita os seus
este clamor que hoje pede
pra gritar ao mundo inteiro:
pai, eu te amo!
Basilina Pereira
O RESGATE
Hoje amanheci com vontade de dormir,
até que a lua apareça novamente
e o sono se espalhe pela orla dos canteiros.
E entre os caminhos de pedras talhadas
eu possa encontrar o silêncio das flores
retido há séculos na memória.
Nessa lembrança, quem sabe,
entre os guardados longínquos e submersos na poeira
talvez eu possa resgatar aquele ponto irresoluto
que se debate em marés de sombras,
levando e trazendo as mesmas incertezas,
num bailado expectante que desliza
para frente e para traz
na vigília eterna do caminho.
Basilina Pereira




















































